Um dos efeitos colaterais da pandemia de Covid-19 é o impacto na economia. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o número de desocupados, subocupados e desalentados cresceu mais de 2,4 milhões, entre março - começo das medidas restritivas no Brasil - e dezembro do ano passado. O ano de 2020 fechou com o maior número de desempregados já registrado na pesquisa. A professora universitária Gloriete Marques, 40, foi uma das pessoas que perdeu o emprego em 2020 e, para conseguir dar a volta por cima, ela empreendeu e mudou suas considerações a respeito da economia criativa. Ela conseguiu utilizar com sucesso os recursos de uma plataforma de permutas multilaterais, que hoje se tornou parte fundamental de seu orçamento.



Ela, que é mestre em Sociologia pela Universidade de Coimbra e autora de 35 livros acadêmicos e um currículo Lattes de fazer inveja, ministrava aulas em cursos de Direito e Administração, e chegou a dar aula em sete faculdades diferentes, se viu na obrigação de colocar em prática os ensinamentos que passava aos alunos. Depois de ser despedida em plena pandemia, logo em abril de 2020, teve de buscar novas formas de empreender.



Ela conta que no mesmo dia de seu acerto já se decidiu a não ficar no desemprego e comprou as araras para montar sua loja virtual de desapego. Gloriete começou com os recursos que estavam disponíveis no momento: seu próprio guarda-roupa e de seus familiares se converteram nos produtos que primeiro alimentaram o estoque de um Brechó Virtual que ela montou, sediado em perfis das redes sociais. Logo a loja de roupas usadas no instagram evoluiu para uma loja de produtos de decoração e itens para o lar.



Mas o upgrade veio quando Gloriete criou um perfil para sua loja na plataforma de permutas multilaterais, a XporY.com, em janeiro deste ano, quando sentiu uma forte queda nas vendas. Em sua visão essa queda pode ter sido provocada pelo fim do auxílio emergencial. “No primeiro mês oferecendo meus produtos na plataforma eu vendi aproximadamente X$ 20 mil, o que me ajudou bastante em investir em equipamentos para minha loja, em novos produtos para meu estoques, em serviços de marketing e divulgação e, por fim, para meu uso pessoal e da minha família”, avaliou Gloriete. Dentro da plataforma, a moeda X$ é equivalente ao Real (R$ 1 = X$ 1) e com o crédito recebido pelas vendas dos itens anunciados é possível comprar produtos e serviços ofertados por mais de 10 mil participantes da plataforma.



“Assim que abri minha loja, comecei a receber sugestões para entrar na plataforma de permutas digitais XporY.com dos meus próprios clientes, que já usavam. Eu era um pouco cética, até começar a participar e ver o quanto a XporY.com movimentou o meu negócio”, atestou Gloriete. Hoje mais de 50% de seu faturamento é derivado das permutas em geral, e 30% delas acontecem diretamente pela plataforma XporY.com.



O resultado dessas negociações a tem ajudado a manter seu estoque e a manter os custos com os gastos pessoais e familiares. Ofertas de restaurantes e lanchonetes estão entre suas preferidas. Ela ainda paga com o resultado de moedas virtuais X$ um tratamento odontológico. “Dentro da plataforma eu coloco meu cérebro para funcionar e acho divertido a questão da permutas, observo o quanto essa plataforma me ajudou e o quanto ela contribui para as pessoas”, finalizou Gloriete.



Com o crescimento, atualmente ela trabalha tanto com itens usados, como novos, porém suas matérias primas geralmente advém do desapego. “Compro tecidos de desapego e encomendo a fabricação de peças novas para enxoval do lar. Também já compro paletes ou troco por outros produtos e encomendo a fabricação de móveis rústicos. Fico sempre atenta às tendências para oferecer produtos diferenciados”, comentou a empreendedora, que já não deseja mais voltar para a área da educação. Seu objetivo é continuar crescendo no ramo do comércio.



Segundo o especialista em inovação, em empreendedorismo e em economia compartilhada, Rafael Barbosa, os negócios em todo mundo já estavam passando por mudanças estimuladas pelas novas tecnologias e redes sociais, mas a pandemia acelerou o processo, e, agora, investir em economia criativa, compartilhada e colaborativa passou a ser essencial. “Muitas formas de negócios inovadoras estão ganhando mais espaço nos últimos meses, pois têm sido um caminho para conseguir movimentar estoques ociosos e melhorar o relacionamento com os clientes, como é o caso das redes de permutas multilaterais”, explica o especialista que é fundador da XporY.com, que registrou aumento de 84% no número de usuários nos últimos 12 meses.