Com menos dinheiro entrando, permutas ganham espaço com economia circular

Afetados por medidas de isolamento social, empresas e profissionais encontram na economia circular uma forma de seguir comercializando seus produtos e serviços

Sondagem feita pela Associação Comercial e Industrial do Estado de Goiás com 80 empresários para levantar o impacto do isolamento social em seus negócios aponta que quase a metade teve uma redução de 70 a 90% de sua receita média diária. Outros 23%, já tiveram queda de 50%, o que traz uma preocupação generalizada para se manter salários e despesas do negócio em dia. O levantamento abrangeu pequenos, médios e grandes negócios da indústria, comércio e serviços e também apontou que somente só 44% dos empresários goianos conseguem suportar parcialmente ou totalmente o fechamento de seus negócios durante mais de três semanas.

No cenário de menos dinheiro circulando nas empresas, ganham mais espaço alternativas de comercialização com as permutas. Segundo fundador da X por Y, startup goiana de permutas multilaterais, o crescimento dos cadastros na plataforma aumentou significativamente após o lock down. A média diária de cadastros mais que dobrou. Antes eram cerca de 15 entradas de novos participantes da economia circular diariamente; agora são pelo menos 40, chegando até a 60. “Muita empresa está com estoque parado e muitos profissionais estão com tempo disponível, e estão buscando fazer negócios por meio das permutas”, diz Rafael Barbosa, especialista em inovação e economia colaborativa.

Fundada em 2014, a XporY.com possui 8 mil cadastrados. No canal, empresas e profissionais oferecem seus produtos ou serviços, que são precificados por meio de uma moeda digital. Assim os negociadores têm liberdade de consumir o que mais lhe convém dentro da plataforma com o crédito que gera em cada operação de permuta. “A gente repetiu, com a tecnologia, o que já aconteceu no passado. As permutas eram a forma de se fazer negócio durante o feudalismo. Com o desenvolvimento do comércio, surgiu a moeda como forma de facilitar as trocas”, diz Rafael.

Rafael Barbosa lembra que, na gestão do negócio, o empreendedor tem duas alternativas para equilibrar o caixa: aumentar sua receita ou deixar de gastar. “Já que a entrada de dinheiro está complicada, a alternativa é economizar e a plataforma pode ajudar. Despesas que são feitas em Reais podem ser feitas por meio do crédito gerado com as permutas”, observa.

O técnico em informática Eurico Daniel da Silveira, que também atua como motorista de aplicativo, relata que o uso da plataforma de permutas tem sido um alívio econômico nesse momento de pandemia. “Com essa recomendação de as pessoas terem que ficar em casa e muita gente fazendo home office não teve jeito, o serviço caiu mesmo. Mas então eu passei a oferecer em X$ os serviços de transporte de passageiros e entregas. Muita gente me procurou para fazer entrega e até algumas viagens curtas”, conta

Eurico explica como gasta os X$ que consegue com a prestação de serviços de transporte. “Costumo ir de duas a três vezes por semana à padaria, e sempre gasto entre R$ 70 e R$ 90, a cada vez que vou. Então é uma economia muito, especialmente nessa época mais difícil”, diz.

A microempresária Alê Soares, proprietária e gestora da Coolab, uma loja colaborativa que reúne acessórios, itens de moda, decoração e arte de 63 marcas de pequenos produtores goianos. A empresária conta que buscou numa parceria firmada recentemente com a X por Y, plataforma digital de permutas multilaterais, uma solução para esses pequenos empreendedores que já estão sendo impactados pelas medidas de isolamento social impostas pelo governo do estado. “Estamos sendo impactados diretamente, pois sem clientes na loja, não há consumo, não há produção, não há giro de recursos para esses pequenos produtores. O problema é que realmente não há previsão do cenário financeiro num futuro próximo. Isso é assustador para os pequenos empreendedores”, diz.

Outra microempresária, Alexandrina Alves, já está na plataforma há dois anos, e oferece arranjos comestíveis. Normalmente, coloca 30% de sua produção para a venda por meio de permutas na X porY. Com início do isolamento, ela já percebe a movimentação do mercado. “Os pedidos em reais já caíram, mas os da plataforma estão se mantendo”, diz.

Como funciona

Na plataforma X por Y, empresas de todos os portes, desde micro a indústrias e profissionais autônomos, oferecem os mais variados serviços e produtos em troca de outros. Tudo é negociado em economia circular na moeda virtual X$, que é equivalente ao Real. Por meio das permutas no ambiente digital é possível anunciar e comercializar serviços, bens novos e usados de qualquer valor, tendo inclusive já realizado permutas de veículos e diversos imóveis. Mas também é possível encontrar itens de necessidade para o dia a dia como roupas e calçados, presentes, produtos e serviços de higiene, beleza e saúde; serviços de alimentação via delivery, entre outros.

Para participar, o interessado deve acessar e se cadastrar gratuitamente pelo aplicativo da X por Y, disponível para iOS ou Android, ou pelo site www.xpory.com. Além da ausência do custo de adesão, os membros da plataforma também não pagam um valor mensal de manutenção e nem comissão sobre as vendas no site. Somente na hora de consumir, é que se paga apenas uma taxa de 10% em reais sobre o valor da compra.